Publicado em: 11/01/2026
A empresária e hoje criadora de conteúdo Carla Ramalho, 34, passou meses ignorando sinais de que algo não ia bem. Olho tremendo, insônia, lapsos e perda de memória, irritabilidade e queda de desempenho viraram parte da rotina enquanto trabalhava como gerente de marketing em uma multinacional. “Eu acordava mais cansada do que quando ia dormir.”
O diagnóstico de burnout veio depois de um longo período de esgotamento tratado como normal. Afastada por 15 dias, tentou voltar ao trabalho, mas teve uma crise de pânico e se demitiu.
Os afastamentos por burnout — síndrome do esgotamento profissional — se multiplicaram por 6 em quatro anos e passaram a pressionar os gastos da Previdência Social.
Dados do MPS (Ministério da Previdência Social) apontam alta de 493% nos auxílios-doença por esgotamento no trabalho e falta de lazer, saltando de 823 casos em 2021 para 4.880 em 2024. Nos seis primeiros meses de 2025, os registros chegaram a 3.494, representando 71,6% dos afastamentos do ano anterior. Os números podem estar subnotificados. O esgotamento no trabalho não é fácil de ser identificado e pode levar o profissional a ser afastado por outras doenças. Além disso, trabalhadores informais não contribuem com o INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) e ficam fora das estatísticas.
“A irritabilidade foi o sintoma mais latente para mim. Entreguei por meses [o trabalho] na força do ódio, ignorando totalmente os sintomas”, diz Carla.
Em 2024, o INSS concedeu 472,3 mil auxílios-doença relacionados à saúde mental — o que inclui depressão, ansiedadee outras síndromes — de um total de 3,6 milhões de afastamentos. No
ano anterior, foram 283,5 mil. Em 2025, os transtornos por saúde mental geraram 271.076 afastamentos de janeiro a junho, de um total de mais de 2 milhões de auxílios, e já representam 1 em cada 7 afastamentos, aproximando-se das concessões por problemas ósseos e musculares.
Carla não recebeu auxílio-doença, pago depois de 15 dias de afastamento — nesse período, para quem tem carteira assinada, o valor é pago pela empresa —, e reconhece que só melhorou por ter rede de apoio e vida financeira estável. Ela destaca o preconceito e o medo de ser visto como fraco como fatores que fazem o trabalhador não buscar ajuda e fugir do afastamento. Em vídeo na internet, explica as diferenças entre ter síndrome de burnout — adoecimento crônico — e
um burnout pontual. A trabalhadora viveu os dois casos.
Despesas com auxílio têm crescido mais do que as com outros benefícios e passaram de R$ 18,9 bilhões em 2022 para R$ 31,8 bilhões em 2024, alta de 68%. Já os gastos totais da Previdência subiram de R$ 734,3 bilhões em 2022 para R$ 802,2 bilhões em 2023 — alta de 9,2% — e chegaram a R$ 876,9 bilhões em 2024, crescimento de 19,4% ante 2022.
“Não é questão de não aguentar o tranco. É questão de adoecer. Se fosse um relacionamento amoroso que te levasse a esse estado, todo o mundo diria para terminar. Burnout não é frescura, não é desculpa. É um problema de saúde reconhecido pela OMS [Organização Mundial da Saúde]”, diz Carla.
O avanço acelerado dos afastamentos por transtornos mentais acendeu um alerta no governo federal. Estudos de impacto começaram ainda na gestão de transição, em 2022, quando já se observavam efeitos prolongados do pós-pandemia.
Licenças por burnout disparam, e gasto com auxílios pressiona a Previdência
Em 2023, normativa do Ministério da Saúde reforçou o burnout como doença ocupacional, consolidando o direito ao auxílio-doença, que dá estabilidade na volta ao trabalho. No ano seguinte, o MTE (Ministério do Trabalho e Emprego) passou a exigir o mapeamento de riscos psicossociais nas empresas. Mas a pressão de empregadores fez o governo adiar para maio de 2026 o início das multas para quem descumprir a norma.
A historiadora e jornalista Ana Carolina Rangel, 44, viveu por anos em estado de exaustão permanente, sem perceber que estava doente. Foi na pandemia de Covid-19 que a exaustão chegou ao limite e veio o diagnóstico: síndrome de burnout.
“Em nenhum momento consegui identificar o que realmente era. Não cheguei a verbalizar na empresa, porque esse tipo de vulnerabilidade era ainda menos aceito do que hoje”, diz.
Ana Carolina, hoje especialista em felicidade corporativa, atribui o aumento do cansaço entre os trabalhadores à intensificação de fatores já existentes, como longas jornadas e dificuldades de transporte, somados ao crescimento da ansiedade, impulsionado pela internet e pela sensação de disponibilidade permanente.
Segundo o MTE, estudos mostram que o impacto do adoecimento mental no trabalho não se limita ao período de afastamento. Benefícios por doenças ocupacionais não exigem carência no INSS — não é preciso ter um mínimo de contribuições para ter direito, como nos auxílios comuns —, o que amplia a base de trabalhadores. Além disso, as contribuições deixam de ser pagas. O profissional continua com depósitos do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) pela empresa e tem estabilidade de 12 meses após voltar ao trabalho. Caso seja considerado auxílio previdenciário — por doença comum —, esses direitos não estão previstos.
Levantamento do escritório Trench Rossi Watanabe mostra que o número de ações trabalhistas pela síndrome segue em trajetória de alta. O termo aparece em 17,2 mil processos distribuídos em 2024 em petições iniciais, sentenças, acórdãos e decisões do TST (Tribunal Superior do Trabalho).
Em 2025, foram 20,1 mil menções, segundo a advogada Priscila Kirchhoff, sócia do escritório. O total representa alta de 16,9%. “Em 2025, as ações trabalhistas que mencionam burnout somaram um passivo de R$ 3,63 bilhões para as empresas. O valor médio das causas por processo foi de R$ 286 mil.”
Para conseguir o auxílio no INSS, o trabalhador deve apresentar atestado médico com a CID (Classificação Internacional de Doenças) e ter laudos que comprovem que o adoecimento está ligado ao trabalho. O pedido é feito pela Central 135 ou pelo aplicativo ou site Meu INSS.
O que é burnout e como perceber a síndrome de esgotamento
Saiba como identificar os sintomas e as causas da síndrome, além de como buscar um diagnóstico, tratamento e como prevenir a doença.
Como identificar os sintomas?
Os critérios clínicos e o Inventário de Burnout de Maslach (MBI) caracterizam o burnout pela tríade exaustão emocional e física, despersonalização ou cinismo em relação ao trabalho e a redução da realização profissional.
Somadas a essas características, podem surgir manifestações físicas e emocionais como insônia, dores de cabeça, problemas gastrointestinais, tensões musculares e dores no corpo, aumento de frequência cardíaca ao pensar no trabalho, zumbido, náusea, lapsos de memória e dificuldade de concentração.
A psicóloga Edwiges Parra diz que os sinais são diferentes de cansaço ou estresse, já que esses fatores são reversíveis como descanso, sendo uma situação pontual. “O burnout é persistente e acumulativo”, afirma.
O que causa burnout?
Quando a exigência da ocupação é maior do que a pessoa consegue atender, por falta de recursos físicos, mentais ou organizacionais, o indivíduo pode ficar mais vulnerável à síndrome.
Alguns dos fatores relacionados são sobrecarga, metas irrealistas, falta de autonomia, ambiente tóxico — competitividade excessiva, injustiças, falta de apoio da liderança e assédio moral —, ausência de reconhecimento, conflito de valores e falta de suporte social no trabalho.
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico deve ser feito por profissionais de saúde, preferencialmente de forma multidisciplinar, envolvendo médicos (psiquiatras) e psicólogos por meio de observações clínicas e avaliações psicológicas.
Qual é o tratamento e como deve serfeita a prevenção?
O tratamento deve ser feito por equipe multidisciplinar, com envolvimento de psiquiatras e psicólogos. O afastamento da rotina laboral, causa do adoecimento, também é estratégia de tratamento. A mudança no estilo de vida é indicada, com a adoção de hábitos mais saudáveis como atividade física, alimentação equilibrada, sono regular e técnicas de relaxamento.
Especialistas recomendam o estabelecimento de limites físicos e emocionais, negando demandas que geram sobrecarga.
Para prevenir o burnout, não basta que medidas sejam individuais, mas também devem ser coletivas e de responsabilidade do empregador. Estas devem incluir a revisão dos modelos de trabalho, mapear riscos psicossociais que seus trabalhadores correm, além de reconhecer o trabalho e
a autonomia dos colaboradores.
Fonte: Folha de São Paulo
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