Publicado em: 05/01/2026
A ansiedade é a doença silenciosa do nosso tempo. Ela não grita, mas corrói. Não se manifesta apenas nas estatísticas dos consultórios, mas nas conversas, nas redes sociais, nos olhares cansados de quem vive em permanente sobressalto. É o sintoma mais nítido de uma civilização que perdeu o eixo e se afastou do essencial.
Vivemos cercados por estímulos e carências. A tecnologia multiplicou os meios, mas reduziu os fins. Nunca tivemos tanto acesso à informação – e nunca fomos tão desinformados sobre nós mesmos. A avalanche digital transformou a vida num fluxo contínuo de notificações, cobranças e comparações. E, como lembrou Ariano Suassuna, “o problema é que a gente trocou a alegria pela euforia, o sossego pela agitação”. A sociedade da pressa virou a fábrica da ansiedade.
Mas o problema é mais profundo. A ansiedade moderna não nasce apenas do excesso de tarefas, mas da ausência de sentido. O homem contemporâneo perdeu o norte. Substituiu a esperança pela expectativa, a oração pela preocupação. Quer controlar o amanhã com as forças de hoje – e se desespera quando percebe que o tempo não se submete à vontade humana.
Santo Agostinho, que conhecia bem as tempestades interiores, confessou: “Fizeste-nos para Ti, Senhor, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Ti.” Essa inquietação é o eco do coração humano em busca de Deus. Quando o homem tenta silenciar esse chamado com barulho, consumo e autossuficiência, a alma adoece. A ansiedade é, no fundo, uma forma moderna de saudade do absoluto.
A psicologia pode – e deve – ajudar. A medicina também. Mas nenhuma terapia substituirá o reencontro do homem com o seu centro. A verdadeira paz não é anestesia, mas serenidade. É o fruto maduro de uma vida ordenada, de uma consciência que aprendeu a confiar. São Josemaria Escrivá, homem de impressionante paz interior, costumava dizer: “Descansa na filiação divina. Deus é Pai
– o teu Pai! – e, se o deixares, Ele resolverá tudo com sabedoria e amor.” Essa confiança filial é o antídoto mais eficaz contra a ansiedade.
O mundo moderno exalta o desempenho, mas esquece a virtude. E são justamente as virtudes – humildade, paciência, fortaleza e esperança – que estruturam a alma e curam a agitação interior. O ansioso quer tudo já; o virtuoso aprende o ritmo da eternidade. O ansioso teme o futuro; o homem de fé o entrega nas mãos de Deus. O ansioso multiplica os pensamentos; o homem prudente simplifica a vida.
A humildade é o primeiro remédio. Ela nos ensina a reconhecer que não somos o centro do universo. A ansiedade nasce, muitas vezes, da ilusão de controle, da crença de que tudo depende de nós. A humildade devolve-nos o equilíbrio. Ensinanos a fazer o possível e confiar o impossível a Deus.
A paciência é o segundo remédio. Não a paciência passiva, resignada, mas aquela que nasce da fé. Paciência é firmeza no tempo. É permanecer sereno quando o coração quer correr. É saber esperar o momento certo das coisas – e aceitar que os frutos espirituais amadurecem lentamente.
A fortaleza é o terceiro remédio. É a virtude dos que não se deixam abater pelo medo. A ansiedade paralisa; a fortaleza liberta. A vida espiritual não é ausência de provações, mas coragem para atravessá-las com serenidade. As dificuldades e as contradições – a cruz – fazem parte do nosso caminhar. Elas nos forjam, nos amadurecem. Fugir do sacrifício é condenar-se ao vazio de uma adolescência tardia.
E a esperança é o vértice de todas as virtudes. Ela ilumina o futuro, mesmo quando o presente é obscuro. O desesperado vê o abismo; o esperançoso enxerga a travessia. A esperança cristã não é ingenuidade, mas confiança lúcida no amor de Deus.
Vivemos tempos de ruído e dispersão. Mas a alma humana precisa de silêncio, de raízes e de transcendência. Não é possível vencer a ansiedade sem reencontrar o eixo da vida interior. O mundo promete liberdade e entrega inquietação; Deus oferece cruz e devolve paz.
Talvez devêssemos reaprender a arte de parar. De rezar. De agradecer. De olhar o céu e perceber que há um sentido para tudo. A serenidade é fruto de um coração reconciliado com o tempo e com Deus. A modernidade nos ensinou a correr; o Evangelho nos ensina a caminhar.
Ariano Suassuna dizia que a alegria verdadeira nasce da fidelidade, não da novidade. É isso: a alma que se ancora na fidelidade a Deus encontra paz, mesmo em meio às tempestades. E essa paz – não a dos anestesiados, mas a dos que confiam – é o maior tesouro que um homem pode possuir.
O ansioso quer controlar o amanhã. O santo confia o amanhã a Deus e vive plenamente – com entusiasmo e otimismo – o hoje. Essa é a verdadeira liberdade. O abandono em Deus, longe de gerar passividade, produz um dinamismo sereno, feito de bom humor e de esperança. O homem que se sabe nas mãos de Deus enfrenta a vida com leveza e coragem. Sabe rir de si mesmo, acolher os imprevistos e seguir adiante com o coração tranquilo.
Afinal, a paz interior – filha da fé e irmã do bom humor – é a prova mais luminosa de que, mesmo no caos do mundo moderno, ainda é possível viver com serenidade, esperança e alegria.
Autor: Carlos Alberto Di Franco, jornalista
Publicação original: O Estado de São Paulo
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O não atendimento à NR-01 pode gerar autuações, multas e responsabilização jurídica, além de aumentar os índices de afastamentos, queda de produtividade e conflitos trabalhistas.
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